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As reinvenções dos Bandeirantes

O que é que “não pode parar” e onde é que “sempre cabe mais um”? São Paulo, claro, respondia o brasilianista norte-americano Joseph Love em sua obra A Locomotiva – São Paulo na Federação Brasileira, 1889-1937, que, nesses clichês, via o DNA de paulistas e paulistanos: uma gana tremenda de crescimento, expansão, pioneirismo e reinvenção.

As bandeiras e monções que partiram da missão jesuítica do século 16 convertida em boca de

sertão “roubaram” Goiás, Mato Grosso e a Amazônia dos espanhóis. Sem os Anhangueras, Raposos, Fernão Dias, é possível que o Brasil fosse só litoral, como o Chile. Mas, como todas as capitais e grandes cidades de toda a América, a expansão de São Paulo para dentro do Brasil era parte da cadeia de transmissão de um centro de diâmetro internacional (Veneza, Lisboa, Madri, Amsterdã, Londres). São Paulo era o centro da periferia de um sistema econômico internacional subordinado ao Atlântico Norte.

Nas trocas de mercadorias, esse encadeamento persistiu até bem pouco tempo, refletindo os vínculos comerciais das economias “periféricas”, “atrasadas” ou “pré-industriais” com as economias “centrais”, “avançadas” ou “industriais”. Hoje, nosso grau de autonomia em termos de mercadorias vai bem, obrigado. Não vivemos de uma corrente de comércio carregando açúcar, ouro e café para economias “centrais” do Atlântico Norte em troca de manufaturas. Hoje, várias correntes de comércio levam nossos produtos agrícolas e manufaturados para as Américas do Sul, do Centro e do Norte; ferro e soja, para a China; máquinas, motores e petróleo, para a União Europeia.

Porém, numa outra corrente, o passado colonial está vivo como nunca: os fluxos financeiros depara a América Latina subordinam-se a Londres e Nova York. O The Boston Consulting Group, contratado pelas entidades que fundaram a associação Brasil Investimentos e Negócios (BRAiN), traçou as correntes das finanças em todo o mundo e verificou que, na América do Norte, na Europa e na Ásia, centros financeiros locais e nacionais se interligam, alguns se especializam e internacionalizam, enquanto apenas aqueles dois podem ser qualificados como “globais”.

Chicago é um centro internacional para mercadorias, moedas e futuros; até o Oriente Médio tem seu centro financeiro internacional, Dubai. Já a América Latina, hoje, como na Colônia, “exporta” e “importa” dinheiro de Londres e de Nova York (sim, vez por outra, há uma emissão de bônus em Tóquio ou em Zurique, mas o grosso dos negócios está na dupla global).

Entretanto, tal situação tende a mudar. A revista The Banker, uma das mais reputadas publicações financeiras mundiais, no ano passado constatou a preocupação com “a migração de negócios dos centros líderes da Europa e dos Estados Unidos devido à regulação mais pesada em curso”. Na vaga da crise financeira mundial, diz The Banker, “é palpável o crescimento de certos hubs nos mercados emergentes”.

Yves Mersch, presidente do Banco Central de Luxemburgo, o segundo maior centro de fundos de investimentos em tamanho e o primeiro em interconectividade, o líder na zona do euro em private banking e em resseguros europeus, já admitiu: “No longo prazo, os centros financeiros emergentes provavelmente terão êxito em atingir a escala e o escopo necessários para seus mercados alcançarem o grupo líder dos centros globais. A crise acelerou essa tendência”.

É claro que os asiáticos estão mais próximos do primeiro pelotão. Contudo, vários dos profissionais entrevistados pela The Banker salientaram a necessidade premente de um Centro Financeiro Internacional (CFI) latino-americano. E para onde olham quando prospectam oportunidades no subcontinente? São Paulo é uma aposta praticamente unânime. A pesquisa anual da revista lista a capital paulista no terceiro lugar entre os centros financeiros internacionais mais promissores, junto com Pequim e atrás de Hong Kong e Cingapura. “O Brasil está aprofundando seus mercados de capitais e tem atraído um crescente número de investidores de longo prazo”, avalia The Banker.

Cana-de-açúcar, ouro, café, a cada produto ou ciclo econômico, os bandeirantes empenharam-se de corpo e alma para expandir fronteiras, abrir frentes pioneiras, até chegarem à industrialização, que acelerou a expansão de serviços e finanças de São Paulo. Nessa trajetória, domaram a Serra do Mar – a Muralha –, enfrentaram os índios, as onças, a malária e os emboabas. Reinventar-se foi a chave para a pujança da locomotiva

Por que não aproveitar a chance que a crise internacional apresenta para reinventar mais uma vez os bandeirantes e colocar São Paulo no mapa dos dez maiores CFIs do mundo? Que tal esse presente no aniversário de 500 anos da missão de Anchieta e Manoel da Nóbrega em 2054?

Antonio Carlos Borges e Wilson Roberto Levorato, respectivamente, são diretor executivo da FecomercioSP e vice-presidente executivo da Febraban. São diretores executivos da associação Brasil Investimentos & Negócios (BRAiN).

Artigo publicado no jornal Estado de S. Paulo (28/1/2013). 

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